TRABALHO

Temos um grupo de senhoras que trabalham juntas há mais de 30 anos. Somos mais ou menos 10 fixas e uma 3 ou 4 eventuais. Tres já morreram e eu, com 75, sou quase a caçulinha.
Já fizemos enfeites de natal (alias, muito lindos), servimos fettuccini na Feira da Bondade e hoje só costuramos para os pobres. Mas está ficando dificil: metade está surda, metade nao enxerga direito, outras nao podem abaixar, outras sao preguiçosas mesmo. É mais pratico pedir que levantar e fazer.
Me lembra muito das pessoas que dizem que nao vao ao hospital ver os doentes, pois o cheiro do éter ou o ambiente nao faz bem a elas. Ora, os hospitais hoje em dia sao hoteis 5 estrelas, o preço deve ser até mais caro. É muito pratico voce nao fazer a obrigaçao alegando uma desculpa. Logicamente hospital nao é passeio, por isto acho que cansa tanto fazer companhia a um doente. Os fluidos de um hospital sao ruins…doença, morte, dor, e voce sai cansado sem ter feito nada.
Mas, voltemos a nossa costura: acho um milagre que tantas mulheres convivam tanto tempo sem brigas, facadas e mortes.Tem algumas mais chatas, outras mais moles, outras com um ritmo proprio. Umas até hoje nao sabem o que fazer a nao ser que voce mande. Outras já chegam e metem a mao na massa. Agora a surdez é que as vezes pega: mesmo as que tem aparelho esquecem de coloca-lo, entao a gente comenta um artigo que saiu no jornal, uma dá um palpite, outra despalpita e quando morre o assunto a surdinha fala: voces leram que… e começa tudo de novo.
Penso assim: se eu nao tivesse 2 dias na semana a minha costura, o que eu faria todos os dias? e como nao consigo ficar sem fazer alguma coisa com as maos, chego em casa e faço casaquinhos de trico, xales, prego colchete, tudo para os enxovais que armamos…nao é bom ?!

Anúncios

ANIVERSARIOS

Outro dia minha irma fez 80 anos. Os filhos fizeram uma festa surpresa e realmente consiguiram engana-la direitinho. Foi um almoço ótimo, na casa de um dos filhos, com mais ou menos 70 a 80 senhoras. Algumas otimas, vestidas normalmente, alegres e falantes. Outras…nem tanto.
Mas o que eu estranhei foi o comentario das pessoas sobre outras que eu vejo sempre mas elas nao:
..”meu Deus!.. como ela esta deformada…olha quanto botox..como ela esta gorda, ou despencada…” etcetc
Entao é o seguinte: voce se vê todo dia no espelho, segue a erosao da idade, mas quando fica uns tempos sem ver uma pessoa o susto é grande. Esta coisa de botox pode ajudar, mas tambem pode deformar. Ficar muito magra despenca tudo; ficar muito gorda, nao há roupa que esconda as vergonhas. A gente tem que tomar cuidado com 2 coisas principalmente: botox e dentes.
Quanto ao cabelo ele vai rareando e se voce nao pentear direito atras fica aparecendo o couro cabeludo. Bebê careca e sem dente é uma gracinha, mas velha careca e sem dente é um horror. Por que isto ? nao entendo, se nascesse um bebe cabeludo e com dentes, seria um monstro, vai entender…
Nao se vista de menininha, fica ridiculo. É melhor cair na “sem gracise”do que inventar moda.
Cabelo muito comprido tambem nao pode. Melhor um Chanel ou coque. Enfim, velhice é uma merda! Dizem que quem fica velha nao fica com cabelo branco, fica loira… Cabelo preto endurece as feiçoes. Entao todo mundo fica padronizado, todo mundo da minha idade, logico.

ASTRAL

Outra coisa que acontece quando se envelhece e é importante é a fuga da tristeza.
A maioria dos velhos vive se queixando da vida, fuja deles. O bom astral é muito importante quando se fica mais velho. Quando voce só “mia” as pessoas tendem a se afastar.
Cada um tem seus problemas, para ter que se preocupar com o dos outros.
Eu, um dia falei para uma amiga: quando eu digo….”oi como vai?”, nao é para voce me contar todos os seus problemas, e sim, dizer…. “tudo bem”… e depois com o tempo, se voce for amiga mesmo, pode ir contando e recebendo apoio ou nao.
O que é serio para uns nao é para outros. Logicamente, é melhor ter saude em um Mercedes do que ser doente em um onibus.

CASAMENTO x ENTERRO . parte 2 – enterro

Ponho uma calça escura, um blazer, blusa branca, mocassim e vou para o velório.
Abraço os familiares, sento-me quietinha perto do caixao e rezo pelo defunto.
Saio para tomar um café numa daquelas maquinas, volto, fico mais um pouco com a viúva ( geralmente a mulher é quem fica) e, em mais ou menos uma hora posso ir embora, ao invés das quatro horas do casamento.
Conclusao: logicamente nao estou me referindo a casamento de netos, sobrinhos e afins, ou enterro de familiares, pois aí entra a emoçao, seja ela de alegria ou de tristeza, o que muda todo o panorama…

CASAMENTO x ENTERRO . parte 1 – casamento

Quando digo que prefiro um enterro a um casamento pensam que estou fazendo genero, mas raciocinem comigo.
Primeiro, o vestido: geralmente é aquele pretinho basico, tao amigo que voce abre o armario, assobia e ele sai contente porque vai passear, quando requer mais que ele, complica.
Segundo, os sapatos: logicamente é aquele preto, reservado só para essas ocasioes, com salto, no qual voce anda quinze metros e já está com dor nas costas, nos pés e parecendo que está pisando em ovos com medo de cair.
Terceiro, cabelereiro: 99% das pessoas idosas tem cabelo curto, todas mais ou menos iguais, mas tem que faze-los mais unhas e pés se for usar uma sandalia ou, se cair e torcer o tornozelo ( imagine tirar o seu pisante e voce com unhas quebradas e calos).
Quarto, maquilagem: faço ou nao ? se fizer com uma profissional posso ficar parecida com umavelha de mascara ou um travesti. Se eu mesma fizer, sou eu mesma um pouco mais caprichada.
Agora, a conduçao: se eu for guiando como estacionar e sair com as jóias que ainda me restam ? com medo até de ficar sem elas, com salto nao dá nem para correr. A bolsa mal dá para levar um lenço, um batom, cogarro, chaves de casa, e uma nota de cincoenta para um taxi eventual. O presente já foi visto, quase sempre acima das suas posses e coisas que voce nao escolheria.
O casamento é as 20hs, chego as 20.10, sempre muito pontual e sento num ponto estrategico. A igreja está vazia, rezo um pouco, sento e penso que poderia ter trazido minhas palavras cruzadas para passar o tempo. Olho o relogio, sao 20.20… começo a olhar as pessoas que chegam, 99% das mulheres de vestido preto, duas de branco, oito de vermelho. as mocinhas de cabelo escorrido, as medias de coque e as velhas de curto. 20:40hs, já vi todo mundo, cumprimentei algumas , sorri para outras e tento sair do foco do fotografo que vai de banco em banco filmando…21hs ! Vejo algumas madrinhas entrando, fico toda animada, parece que agora vai… 21:15 chega a noiva, finally! Vestido branco, véu e bouquet de flores nas maos tremulas. As feias conseguem ficar muito bem, quase bonitas. as bonitas ficam lindas.
Hoje em dia é uso e costume terem 8/10/12 padrinhos de cada lado, masi os pais dos noivos, é um exercito no altar. O padre fala, o noivo fala, a noiva fala, nao se escuta nada pois os convidados falam ainda mais. Estou com fome! devia fazer como Scarlett O’Hara em “O vento levou” que sempre comia alguma coisa em casa antes de ir a alguma festa.
Acabou a cerimonia! os noivos vao cumprimentar os padrinhos e levam mais ou menos meia hora…nesta hora só penso na minha camisola, meu chinelo e meu sofá.
Vamos para a festa. Sentamos numa mesa com 5 ou 6 idosas (para nao falar velhas), pegamos uma taça de prosecco, finge que é champagne e esperamos passar os salgadinhos.Mas agora nao é mais assim:inventaram as “ilhas de comida”! voce tem que ir lá para comer alguma coisa. Se voce for a primeira a se levantar, pode estar certa que as outras vao pedir alguma coisa. E lá vem voce de volta com um pratinho cheio de pate, queijos, salmao, etc e quando voce chega na mesa somem dos seu olhos.
Tenta-se conversar mas como a musica é alta e metade é surda nao se consegue nada.
23hs acendem-se os rechauds, comida a vista! a fila do INSS se forma em tempo recorde. Lá vou eu de novo. O primeiro prato do buffet geralmente é uma salada,nao quero. Salada eu como em casa. Passo para o seguinte: uma massa. Nao gosto de molho de tomate, sigo em frente. Um peixe… e se tiver espinhas e eu nao enxergar ? finalmente um risoto e um franguinho se passando por peru ou codorna. O garçon me serve e eu volto para a mesa, e eu, mesmo que queira mais, nao enfrento a fila de novo.
Começam as danças: voces já repararam como é ridiculo as pessoas se requebrando? a nao ser que sejam profissionais ou muito jeitosas. A musica está mais alta e ficamos todos com cara que estamos nos divertindo, e pensando só na nossa caminha.
Meia noite: vou virar abobora e perder meus sapatos na escadaria. Vou até a mesa de doces, nao é o meu forte mas geralmente sao muito bem arrumados. Quando consigo, saio com algum Cristo que me leva para casa, onde chego cansada, com dores nos pés, nas costas e de cabeça. Tiro toda a parafernalia e me estico. Estou em casa!